Em vídeo de reunião, Bolsonaro reclama de pressão para mostrar exames de Covid-19 e que abrir impeachment por isso seria 'babaquice'

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reclama, em vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, da pressão pela pulgação dos resultado dos exames para coronavírus. Ele diz que usar um eventual pedido de abertura de impeachment por este motivo seria uma "frescurada" e uma "babaquice". "Tem aí OAB da vida, enchendo o saco do Supremo, pra abrir o processo de impeachment porque eu não apresentei meu meu exame de vírus, essas frescurada toda, que todo mundo tem que tá ligado", diz Jair Bolsonaro durante a reunião. Jair Bolsonaro volta a falar sobre os exames mais adiante na reunião: "E se eu cair, cai todo mundo. Se tiver que cair um dia, vamos cair lutando, uma bandeira justa. Não por uma babaquice de exame antivírus, pô. Pelo amor de Deus, pô. Tá? Eu até... deixar bem claro, de uns oito ano pra cá, quando pedia farmácia de manipulação um remédio qualquer, eu falava com o médico: "Bota um nome de fantasia". Porque se for o meu nome pra lá, como era, sempre fui um cara manjado. Tem três, quatro que vão manipular lá o medicamento, podem me envenenar, pô! E assim é a mesma coisa a questão do vírus, entre outros. De acordo com interesse, o cara dá negativo ou dá positivo. Depois que deu, vai pra contraprova mas dá problema." Jair Bolsonaro continua a falar sobre os exames: "E nós sabemos, tá certo? Que nós temos um compromisso com a verdade. Eu jamais mentiria se não tivesse realmente um exame negativo. Jamais eu ia mentir a negativa deu positivo, ou vice-versa. Jamais." Nesta sexta-feira (22), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello derrubou o sigilo do vídeo da reunião. A gravação foi parar no Supremo depois que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro indicou que seu conteúdo comprovaria as acusações dele de que Bolsonaro estava tentando interferir politicamente na Polícia Federal. Bolsonaro fez os testes depois da confirmação de que membros de sua equipe haviam contraído a Covid-19. O presidente, e o Palácio do Planalto, pulgaram que os exames deram resultado negativo para o vírus, mas se negavam a pulgar o laudo. Mesmo durante a pandemia, e apesar das orientações médicas para evitar aproximação entre pessoas, Bolsonaro participou de manifestações em Brasília e fez passeios por cidades próximas à capital, provocando aglomerações e cumprimentando pessoas, o que gerou críticas ao presidente. Bolsonaro acabou sendo obrigado pelo STF a tornar público o resultado de seus exames. O Supremo atendeu a pedido do jornal "O Estado de S. Paulo". Os laudos de três exames entregues ao Supremo, porém, indicaram que o presidente teve resultado negativo para o novo coronavírus. Inquérito investiga Bolsonaro No final de abril, Celso de Mello autorizou a abertura de inquérito para apurar as denúncias de Moro, atendendo a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). Relator do inquérito, no começo de maio o ministro ordenou à Presidência da República que entregasse cópia do vídeo. Depois, autorizou a exibição dele numa sessão que reuniu agentes da Polícia Federal ligados ao inquérito, além de Moro e seus advogados e representantes da PGR. Nesta época, começaram a surgir na imprensa reportagens sobre o conteúdo do vídeo, que tinham como base relato de pessoas que assistiram a ele. O próprio Bolsonaro admitiu que o conteúdo do vídeo era polêmico, e defendeu a pulgação pelo Supremo apenas de trechos de suas falas diretamente relacionados ao foco do inquérito, ou seja, a sua suposta tentativa de interferir na PF. Bolsonaro usou palavrões e fez ameaças de demissão para trocar comando da PF no Rio, dizem fontes que viram vídeo de reunião De acordo com o presidente, durante a reunião foram discutidos temas sensíveis, relacionados por exemplo à política externa do governo e à segurança nacional. Para Bolsonaro, esses trechos não deveriam ser tornados. Ao Supremo, o procurador-geral da República, Augusto Aras, também defendeu a pulgação apenas dos trechos do vídeo relacionados ao inquérito. De acordo com Aras, “a pulgação integral do conteúdo o converteria, de instrumento técnico e legal de busca da reconstrução histórica de fatos, em arsenal de uso político, pré-eleitoral (2022), de instabilidade pública e de proliferação de querelas e de pretexto para investigações genéricas sobre pessoas, falas, opiniões e modos de expressão totalmente persas do objeto das investigações." Já a defesa do ex-ministro Sérgio Moro afirmou que o material não continha menção a "nenhum tema sensível à segurança nacional" e, por isso, defendeu a pulgação do vídeo na íntegra. A reunião ministerial A reunião ministerial citada por Moro aconteceu em 22 de abril. Além do presidente Bolsonaro, estavam presentes o vice, Hamilton Mourão, Moro e outros ministros. Ao todo, 25 autoridades participaram do encontro. Conforme diálogos do encontro, transcritos pela Advocacia-Geral da União, Bolsonaro reclamou da falta de informações da Polícia Federal e afirmou que iria "interferir". A declaração, no entanto, não deixa claro como ele faria isso. A defesa de Moro pediu ao STF que pulgue a íntegra do material. Celso de Mello, então, pediu pareceres à AGU e à PGR. As respostas foram: Procuradoria Geral da República: defende a pulgação somente de falas do presidente. Quer que o recorte seja dos trechos que tratam da atuação da Polícia Federal, da "segurança", do Ministério da Justiça, da Agência Brasileira de Inteligência e da alegada falta de informações de inteligência das agências públicas.Advocacia Geral da União: defende a pulgação das falas de Bolsonaro, mas não das falas dos demais participantes de reunião. Cronologia 24 de abril, manhã: Sergio Moro se demite do cargo de Ministro da Justiça, e diz que Jair Bolsonaro interferiu na PF ao demitir o então diretor-geral do órgão, Maurício Valeixo, e insistir na troca do comando da PF no Rio de Janeiro. 24 de abril, tarde: Jair Bolsonaro faz pronunciamento cercado pela maioria de seus ministros e diz que Moro propôs aceitar demissão de diretor da PF se fosse indicado ministro do STF. O presidente nega interferência mas diz que pedia a Moro, e nunca obteve, um relatório diário das atividades da PF para poder tomar decisões de governo. 24 de abril, noite: Jornal Nacional revela parte das mensagens trocadas entre o ex-ministro e a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), em que ela tentava convencer Moro a permanecer no cargo. 24 de abril: Procurador-geral da República, Augusto Aras, solicita abertura de inquérito para apurar declarações de Moro. 27 de abril: Celso de Mello autoriza inquérito no STF para apurar declarações de Moro com acusações a Bolsonaro. 2 de maio: Ex-ministro Sergio Moro presta depoimento de mais de 8 horas na sede da PF em Curitiba. 6 de maio: Celso de Mello determina que vídeo seja entregue pelo governo em 72 horas. 6 de maio: AGU vai ao STF para tentar rever decisão que mandou entregar vídeo de reunião citada por Moro. 9 de maio: PGR pede acesso à integra do vídeo de reunião entre Bolsonaro e Moro. 14 de maio: Divulgada a íntegra da troca de mensagens entre Moro e Zambelli; deputada diz a Moro que Bolsonaro 'vai cair se o sr. sair'. 14 de maio: AGU pede ao STF que libere somente as falas do presidente Jair Bolsonaro; defesa de Moro alega que a petição omite trechos relevantes para a compreensão correta da fala do presidente, e reforça pedido para publicar vídeo na íntegra. 15 de maio: Jair Bolsonaro admite, pela primeira vez, que citou a PF no vídeo da reunião ministerial e confirmou que a transcrição da Advocacia-Geral da União está correta. 19 de maio: Celso de Mello assiste à íntegra do vídeo da reunião ministerial. ACUSAÇÕES DE MORO CONTRA BOLSONARO Bolsonaro surpreende Moro ao exonerar Valeixo do comando da PF Moro anuncia demissão do Ministério da Justiça Leia a íntegra do pronunciamento em que Moro anuncia saída Moro diz que Bolsonaro tentou intervir na Polícia Federal PGR diz que tem dever de apurar eventuais ilícitos Celso de Mello autoriza inquérito no STF para apurar declarações de Moro Em Curitiba, Moro presta depoimento de mais de 8 horas na PF Moro diz que Bolsonaro pediu comando da PF do Rio Moro entrega vídeo de reunião ministerial com Bolsonaro à PF Moro exibe troca de mensagens em que Bolsonaro cobra mudança no comando da PF Bolsonaro não responde sobre acusação de Moro Moro, procuradores e advogado da União acompanham exibição de vídeo Bolsonaro usou palavrões e fez ameaças de demissão, dizem fontes que viram vídeo Defesa de Moro pede ao STF pulgação integral de vídeo Bolsonaro nega ter falado de Polícia Federal em reunião
22/05/2020 (00:00)
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